O potencial do sorgo para a produção de etanol deve tirar o grão oriundo da África de uma posição periférica no Oeste da Bahia para um papel cada vez mais central. Com uma atenção cada vez maior para o mercado de biocombustíveis, os produtores baianos vêm ampliando a área destinada a culturas que há até pouco tempo eram usadas apenas como rotação, ou segunda safra, em um movimento que deve se manter em crescimento nos próximos anos. Entre a safra encerrada em meados de 2024 e a que se encerrou no mesmo período de 2025, a produção de sorgo teve um incremento de área de 27%, alcançando 190 mil hectares, com uma produção acima de 575 mil toneladas. As perspectivas para a safra encerrada agora em 2026 é de um crescimento de 5% para a cultura.
Assim como o milho e a soja, o sorgo também tem grande potencial energético, mas se destaca por algumas características que podem ser muito interessantes tanto para produtores rurais na região Oeste quanto em outras áreas do estado. Além de um custo de produção mais baixo, o grão tem uma necessidade hídrica bastante reduzida na comparação com o milho – o que o torna uma opção mais segura em áreas dos chamados sequeiros, onde não se utilizam sistemas de irrigação. E o estímulo que ainda faltava veio com a demanda para a produção de etanol, com a instalação da Inpasa, em Luís Eduardo Magalhães. A indústria de origem paraguaia está revolucionando o mercado brasileiro do produto, que ainda era baseado principalmente na cana-de-açúcar.
Assim como o milho, o sorgo oferece a possibilidade da produção tanto do etanol, quanto do DDG, um subproduto altamente proteico que serve como ração animal. Nas fazendas, a cultura gera também um retorno indireto ao fornecer cobertura de solo (palhada). Mais resistente, o grão originário do nordeste da África, na região da Etiópia, já era cultivado 8 mil anos antes de Cristo. No decorrer da história foi usado para a alimentação humana e também na produção de bebidas.
A região Oeste enxerga a produção de etanol a partir do milho e do sorgo como impulsionadora de uma nova onda de desenvolvimento, tanto para a produção agrícola quanto para a pecuária. Em outra frente, a soja, carro-chefe da agricultura baiana, é reconhecida pelo potencial para a produção de biodiesel, o que amplia as possibilidades produtivas, destaca o produtor rural Moises Schmidt, presidente da Associação Baiana de Agricultores e Irrigantes (Aiba). “O uso dos biocombustíveis é crescente no Brasil e isso abre uma oportunidade gigantesca para o agronegócio. Temos o uso do etanol, que está crescendo e deixando de ser produzido apenas a partir da cana, para ter o milho e o sorgo como outras vertentes”, lembra. Além disso, a região produz o biodiesel, que faz parte de 15% da composição do diesel comercializado no país, tanto a partir da soja, quanto do sebo bovino, acrescenta.
O presidente da Aiba lembra que a instalação de empresas para o beneficiamento da produção agrícola e a produção dos combustíveis a partir do campo é uma etapa fundamental para a estruturação das cadeias produtivas. “O milho sempre esteve presente aqui na região, mas era uma cultura de rotação. Hoje já vemos produtores trabalhando o milho como primeira safra”, diz, reconhecendo que já existe uma mudança no status da cultura. “O milho ficava sempre em segundo plano porque não havia procura e perdia em produtividade para o Mato Grosso. Com a vertente do etanol, e a instalação de indústrias, como a Inpasa e outras duas que já são públicas — uma na região de Riachão/Santa Rita de Cássia (Lida Bioenergia LTDA) e outra em Roda Velha — o cenário mudou”, acredita.
Bahia Farm Show 2026
Para Moisés Schmidt, o grande gargalo a ser superado pelo Oeste nesta nova fase de desenvolvimento é o mesmo de outros momentos: logística eficiente fora das porteiras. “Embora tenha havido melhoras nos últimos dois anos, a logística — que envolve asfalto, ferrovias, portos e hidrovias — não acompanha o crescimento da iniciativa privada, do agronegócio e da agroindústria. Precisamos bater nessa tecla para que o governo, seja de forma pública ou via parcerias público-privadas (PPPs), esteja junto a esse desenvolvimento. Só assim teremos a interiorização da indústria, distribuição de renda e qualidade de vida para todos no ecossistema da agricultura”, defende.
Celito Missio, sócio fundador da Sementes Oilema, explica que a produção de milho na Bahia, embora relevante, é limitada por questões climáticas. Algo que não acontece no caso do sorgo. “A Bahia não tem clima para uma segunda safra de milho. A segunda safra ocorre no Mato Grosso, onde chove 2.000 milimetros (mm) por ano, mas aqui chove entre 1.000 e 1.200 mm e o nosso período de chuva é mais curto, de novembro a março”, compara. Por outro lado, diz, “o sorgo é produzido com metade da água que o milho precisa”.
Missio explica que o valor comercial do milho é maior que o do sorgo porque no primeiro caso é possível produzir também o óleo dele, mas, segundo ele, as diferenças de preço estão caindo no decorrer dos anos. Se antes, o sorgo valia 30% a menos, agora caiu para 15%.
Agro baiano aposta em produtividade para superar cenário complexo
Com estas perspectivas, a Oilema adotou o sorgo como a sua segunda bandeira de sementes e está há quatro anos crescendo a quase 100% por safra. “Em 2022 comercializamos 5 mil sacos, depois 15 mil, 25 mil e, este ano, praticamente 50 mil sacos. A ideia para o ano que vem é chegar a 100 mil”, projeta Celito Missio.
Para o executivo, a atratividade econômica da cultura agrícola deverá se refletir na busca por melhorias e soluções para ampliar a produtividade da cultura. “Eu acredito que uma grande contribuição da Bahia para o mercado de biocombustíveis será o sorgo na segunda safra. Temos 2,2 milhões de hectares de soja. Desse total, pelo menos 1,8 milhão é de segunda safra, e 1/3 disso (600 mil hectares) pode tranquilamente ser plantado com sorgo”, acredita.
Para ele, o mercado de etanol será alimentado tanto pela produção de milho, quanto pela de sorgo, com a segunda ganhando cada vez mais espaço no mercado.
O presidente da Federação da Agricultura do Estado da Bahia, Humberto Miranda, é um entusiasta do processo de transformação da produção agrícola em energia. Para ele, o resultado final da transformação do potencial agrícola baiano em energia é desenvolvimento. “Já que nós estamos aqui no Oeste com a Inpasa, que chegou para fazer etanol de milho e de sorgo. Estamos juntando um potencial agrícola que o estado tem com a demanda por combustíveis. Estamos produzindo um combustível que eu imagino que deveria ser uma prioridade nacional. O Brasil tinha que ser o país do etanol, porque a gente tem essa produção sustentável no campo e teria um uso também sustentável nos nossos automóveis”, pondera. “E, melhor ainda, diminuiria a nossa dependência da importação de combustível, onerando o país e aumentando preços. Esta é uma equação em que todo mundo ganha”, acredita.
O dirigente cobra a criação de políticas públicas para incentivar a produção de biocombustíveis. “Ainda tem muita coisa que está no campo da pesquisa, ou onde estamos com as dificuldades naturais dos custos Brasil e da burocracia brasileira de implementar e dar velocidade a isso”, diz.
Miranda ressalta o sorgo como uma cultura que pode impulsionar também uma transformação socioeconômica no estado. “É um produto que pode ocupar uma outra parte do estado, que é o semiárido, que ainda é a região mais pobre da Bahia e representa 70% do nosso estado — a gente não pode esquecer disso”, frisa. “Como ele tem uma capacidade de suportar uma janela de chuvas mais curta e uma resistência maior ao estresse hídrico do que o milho, essa inovação da utilização do sorgo para biocombustível, pode ocupar terras do semiárido que estão degradadas, precisando ser recuperadas, e gerar oportunidade de melhoria de renda do povo do semiárido”, acredita.
O ministro de Minas e Energia, que esteve presente na Bahia Farm Show, entre os dias 08 e 13 de junho, destacou as perspectivas do mercado de biocombustíveis como oportunidades para os produtores rurais da Bahia. Segundo ele, o governo estuda a ampliação da mistura do etanol na gasolina e do biodiesel no diesel comercializado no país, o que pode representar aumento de demanda para a produção rural dos insumos. Segundo Silveira, os estudos em curso são para a ampliação do etanol na mistura da gasolina dos atuais 27% para até 32%, enquanto o biodiesel pode sair de 15% para 25%.
Também presente na principal feira agrícola do Norte e Nordeste do país, o vice-presidente Geraldo Alckmin destacou o aumento 800% na produção de milho como matéria-prima para o etanol nos últimos anos. “Veja a como o biocombustível é importante nesse momento de guerra, onde disparou o preço do petróleo. Faz diferença o Brasil ser o campeão dos biocombustíveis”, aponta.
Alckmin lembrou ainda de projetos que buscam a substituição do combustível para a aviação por uma versão sustentável, o SAF, como é o caso do projeto da Macaúba, que vem sendo desenvolvido pela Acelen, proprietária da Refinaria de Mataripe, na Bahia. “Quem é que pode produzir isso? É o Brasil. O Brasil vai ser o grande fornecedor de SAF para a aviação e também para navios. Nós vamos ser os grandes protagonistas dos biocombustíveis”, afirmou.
Em outra frente, a baiana Bahiagás também apresentou um projeto para a produção de biogás e biometano, a partir de resíduos orgânicos. Durante a Bahia Farm Show, a empresa assinou um protocolo de intenções para o desenvolvimento de soluções energéticas no Oeste.
Para o presidente da Bahiagás, Luiz Gavazza, a parceria reforça o potencial da região para liderar iniciativas que conciliem crescimento econômico, inovação e responsabilidade ambiental.
Bahia Farm Show
A 20ª edição da Bahia Farm Show, encerrada no último sábado (dia 13), terminou com números significativos. O complexo em Luís Eduardo Magalhães recebeu pouco mais de 172 mil pessoas, o que representa um aumento de 6% em relação ao público na última edição. Além disso, houve um aumento de 28% no número de expositores e de 26% na quantidade de marcas representadas durante os seis dias da maior feira agrícola do Norte-Nordeste.
A próxima edição da feira já está confirmada o período entre 7 e 12 de junho de 2027. “Já reservamos a data e convidamos todos a colocarem esses dias na agenda. Foi uma escolha unânime de toda a aliança do agro, respeitando também o calendário de outras feiras parceiras”, disse o produtor rural Moises Schimidt, presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) e da BFS.
Um dos destaques desta edição foi o aumento da presença de empresas, investidores e compradores internacionais, reforçando o papel da feira como uma das principais vitrines do setor agrícola brasileiro para o mundo. Além de executivos globais de grandes marcas do agronegócio, que tradicionalmente visitam o evento, esta edição contou com a participação de uma comitiva da China, que marcou presença com estande próprio, além de representantes de Angola, Portugal e de outros países interessados nas oportunidades geradas pela expansão agrícola da região.
“O Oeste da Bahia é uma região que tem se destacado na produção agrícola e que vive um momento importante de expansão da irrigação. Além disso, o crescimento das exportações de soja, algodão e frutas desperta o interesse de compradores de diversas partes do mundo”, ressaltou Alan Malinski, coordenador-geral da BFS.
Fonte: Correio