Confinamento para 65 mil bois no Oeste da Bahia revela nova escala da pecuária brasileira

Operação de grande porte em região de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães integra agricultura e pecuária, aposta em automação e projeta frigorífico próprio para exportação.

Confinamento de gado com capacidade para 65 mil bovinos no Oeste da Bahia, em operação integrada à produção agrícola.
Confinamento de grande escala reforça a integração entre agricultura e pecuária no Oeste da Bahia. 📸Divulgação

Um confinamento com capacidade estática para 65 mil bovinos, sistemas automatizados para distribuição de dietas e planos para construir um frigorífico próprio habilitado à exportação ajuda a dimensionar o avanço da intensificação da pecuária brasileira.

A operação está no Oeste da Bahia, uma das principais fronteiras agrícolas do país, onde lavoura e produção de carne vêm formando sistemas cada vez mais integrados.

O caso foi identificado durante a Rota 1 do Confina Brasil, levantamento encabeçado pela Scot Consultoria que percorreu 36 propriedades de pecuária de corte em São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia.

Mais do que encontrar grandes estruturas de engorda, a expedição revelou uma mudança importante: em boa parte das propriedades visitadas, o confinamento deixou de funcionar como uma atividade isolada para assumir papel estratégico dentro de sistemas produtivos maiores.

Na prática, o cocho está sendo usado para resolver problemas diferentes conforme a região: aproveitar resíduos da agroindústria, liberar terras para agricultura, enfrentar períodos de seca, acelerar o ciclo dos animais ou agregar valor aos grãos produzidos dentro da própria fazenda.

No Oeste baiano, agricultura e pecuária se encontram. O contraste mais evidente apareceu quando a equipe chegou ao eixo de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, no Oeste da Bahia.

Em uma região marcada pela produção de grãos em grande escala, o confinamento funciona como uma espécie de elo entre a lavoura e a produção de carne. Segundo o levantamento, a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) permite produzir arrobas a custos competitivos durante a recria, antes que os animais sigam para o cocho na fase de terminação. É nesse ambiente que aparece uma das operações de maior escala registradas na primeira etapa do projeto.

A propriedade possui capacidade estática para 65 mil cabeças e está investindo em automação do trato, incluindo seis reservatórios intermediários do tipo BatchBox, com o objetivo de aumentar a velocidade e a precisão na distribuição das dietas. O próximo movimento é ainda mais relevante: de acordo com o levantamento do Confina Brasil, a operação projeta construir um frigorífico próprio com habilitação para exportação, numa estratégia voltada a reduzir gargalos logísticos e agregar valor à carne produzida na região. Em São Paulo, até resíduos da agroindústria viram carne A transformação não está restrita às grandes propriedades do Oeste baiano. Nas nove fazendas visitadas em São Paulo, o Confina Brasil encontrou uma pecuária intensiva fortemente ligada à eficiência no uso da terra e ao aproveitamento de materiais provenientes da agroindústria.

Bagaço de cana-de-açúcar, polpa cítrica e resíduos de cervejaria aparecem nas dietas dos bovinos. Materiais que poderiam representar custos ou desafios de destinação passam a funcionar como ingredientes nutricionais.

O ciclo pode continuar depois do cocho: os dejetos dos animais retornam às áreas agrícolas como fertilizante orgânico, ajudando na produção dos alimentos que poderão abastecer novos lotes.

Outro movimento observado pela expedição é a terceirização da terminação. Diante do elevado valor da terra paulista, produtores podem mandar os bovinos para estruturas especializadas e utilizar suas próprias áreas em atividades agrícolas ou intensificar cria e recria.

Minas Gerais mostra até onde a intensificação pode chegar

Minas Gerais apresentou outra realidade. Nas nove propriedades visitadas, a equipe encontrou desde produtores iniciando no confinamento até grupos verticalizados que reúnem marca própria de carne, frigorífico e outras atividades produtivas.

Um dos sistemas observados chama atenção pela velocidade do ciclo produtivo. Matrizes F1 Angus x Nelore são inseminadas com Angus. Depois do parto, vaca e bezerro seguem para o confinamento. A matriz continua amamentando enquanto ganha peso e, após a desmama antecipada, pode ser abatida antes dos 24 meses. O bezerro permanece no sistema para recria e engorda e pode chegar ao abate antes dos 15 meses de idade. Segundo a Scot Consultoria, a estratégia permite obter dois produtos de elevado padrão dentro de um ciclo bastante curto, embora sua viabilidade dependa da capacidade de capturar as bonificações oferecidas pela indústria.

Pecuária de precisão também chegou ao confinamento

No Espírito Santo, onde a disponibilidade e o valor da terra pressionam a produção por hectare, tecnologia e intensificação aparecem como respostas. Nas quatro propriedades visitadas no Norte capixaba, foram identificadas ferramentas como drones para contagem automatizada do rebanho e índices de bem-estar animal acompanhados em tempo real, gerando informações para decisões de manejo.

Nesse cenário, o confinamento não necessariamente funciona durante todo o ano. Ele pode ser acionado de maneira sazonal para melhorar o aproveitamento da terra e manter regularidade na oferta de bovinos para a indústria frigorífica.

Nem toda Bahia é igual

A própria expedição mostra por que falar em um único modelo de confinamento brasileiro seria simplificar demais o setor. No Sul da Bahia, o levantamento encontrou maior predominância de cria e recria a pasto e participação ainda pequena do confinamento. Na região central, a situação muda. Com restrições hídricas e menor disponibilidade de volumoso, produtores vêm adaptando dietas e estratégias de compra. O Confina Brasil identificou propriedades aproveitando períodos de seca para adquirir matrizes com bezerro ao pé desvalorizadas, além da utilização de estruturas de Terminação Intensiva a Pasto (TIP) que podem ser convertidas temporariamente em confinamentos. Mais a oeste, a disponibilidade de grãos e a escala agrícola criam as condições para operações muito maiores — chegando justamente ao projeto com capacidade estática para 65 mil animais.

O confinamento brasileiro está mudando de função

A principal conclusão da primeira rota talvez seja mais importante do que o tamanho de qualquer confinamento individual.

Nas 36 propriedades analisadas, o cocho aparece menos como um negócio independente e mais como uma ferramenta de gestão da fazenda. Ele pode transformar coprodutos agrícolas em carne em São Paulo, acelerar ciclos produtivos em Minas Gerais, aumentar a produção por hectare no Espírito Santo ou aproveitar a enorme oferta agrícola do Oeste baiano.

Essa é justamente a interpretação apresentada pela equipe responsável pelo levantamento: o valor encontrado na primeira etapa está menos na escala isolada dos confinamentos e mais na capacidade de integrar a terminação a sistemas produtivos mais amplos, adaptados às condições econômicas, agrícolas e climáticas de cada região.

Para o pecuarista, a mudança é relevante. Confinar deixa de significar simplesmente colocar o boi no cocho para ganhar peso mais rápido. Cada vez mais, a decisão envolve custo da terra, disponibilidade de grãos e coprodutos, preço da reposição, logística, agricultura, escala e capacidade de comercialização.

E a operação de 65 mil cabeças encontrada no Oeste baiano é uma demonstração do tamanho que essa integração pode alcançar.

Fonte: Compre Rural

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